Bola de neve

Sunday, May 22, 2011

Na chuva

Pode ser a chuva, o inverno, a ventania, o frio. O frio do coração outrora aquecido, agora desquecido. Podem ser os corpos, expurgados do físico, atrelados ao ínfimo. A dedicação intelectual insaciável, incomunicável. A energia tentando ser preservada, resguardada, porém muitas vezes desperdiçada.

Porque todos somos pelo menos quatro em um só, embora a maioria tente transformar sempre dois em um. Um amor, um só coração. A verdade é que se passou um ano sem poesia, sem frio na barriga. Tentativas vãs e conscientes. Agora a vontade de falar bobagens volta, arredia. No fundo tinha tudo para dar certo, mas a sensação é de um começo errado. E haverá de haver caminho correto?

A bola de neve é um sinal. Pode virar uma avalanche, sair rolando morro abaixo, trazendo uma enxurrada de sorrisos e novidades. Pode apenas derreter, virar gota de água fria, parada no chão, pisoteada por botas de lutas.

Não exagere, sequera valeria um traçado numa folha usada se não fosse todo um turbilhão calmo de acontecimentos. Sem saco para canções.

Monday, May 03, 2010

Escrever não é como se aprende na escola. Não basta um curso de caligrafia, letras bem arredondadas e vogais combinadas. É uma verdadeira arte. Ou se nasce possuidor de um invólucro laranja brilhante que inspira bons contos e versos, ou se acumula angústias na vida que extrapolem à condição da alma e mereçam ir para o papel. Não tem para onde correr, ser artista é assim: tem que haver uma angústia, uma incompreensão que saia do fundo da alma e implore para ganhar vida através das palavras. Assim são os músicos, os poetas, os cineastas: seres incompreendidos, em constante reflexão.
Talvez por isso eu nunca tenha tido inclinação para as artes. E não me refiro aqui às mais sublimes. Coisas simples mesmo, tarefas cotidianas. Artesanato, confecção de bijuterias, flores de papel. Tentativas vãs e desinteressadas. A verdade é que sempre busquei respostas aos meus questionamentos e às minhas reflexões, sempre com os pés na terra. Nada mais justo: capricórnio, signo de terra, fincado no chão.
E não vou mudar. Aconteça o que acontecer. Amores vêm e vão, o aprendizado fica, e os ideais acompanham. Uma mudança é necessária sim. Para a leveza, para a comunicação, a tranquilidade. Mas com a mesma personalidade forte e determinação. Avante!

Monday, July 13, 2009

2009.2

Foi só o segundo semestre do ano dar as caras e o meu mapa astral parece ter compreendido: mudanças à vista. E boas mudanças, espero! Cética e desconfiada que sou, estou demorando a acreditar que as novidades podem, realmente, dar rumo a uma nova etapa de minha vida. Em dois sentidos: chocolate para um, flores de outro.

Rumo a um coração mais aberto e ao mesmo tempo mais centrado. Rumo a um projeto profissional com acompanhamento impecável. Se eu fosse mais impulsiva e menos racional, estaria na Lua! Capricorniana que sou, controlada, arredia, o coração bate mais forte, mas a mente segura o "beat apressado"; tudo sempre sob controle.

Melhor assim: manter o foco e seguir tranquila.

Um ano depois do último post, finalmente o estômago parece poder descansar, apesar do vendaval de auto-cobranças que está prestes a vir. Sem um, o outro não andaria bem. Sem o outro, um só estaria pouco. Como diz o ditado, um é pouco, dois é bom, três é demais. E é assim que preciso ficar agora. Com os dois. Cada um tomando conta de um aspecto importante da minha vida.

E se o final não for feliz, é porque ainda não cheguei até o final.

Thursday, July 24, 2008

Acidente de trânsito

Imagine que você está dirigindo numa pista recém-asfaltada, lisinha, sem radares, você pode correr, dirigir bem rápido, sentido o ponteiro subir. Porém não há necessidade, você não está com pressa, você não está à trabalho. As ruas não são poluídas, os carros não são barulhentos, não há sinaleiras, nem mendingos. Você pode contemplar a paisagem enquanto dirige, um bosque lindo, àrvores enfeitam os canteiros das pistas limpas, nada fora do lugar. A estrada é longa, o céu é azul e você ouve música romântica. Ah! Como é lindo viver! É uma estrada nova, você se arriscou pensando que poderia ser sinuosa, arisca, mas se surpreendeu. Tudo é lindo, bucólico, romântico.

É claro que quem dirige sabe que está correndo o risco de acidentes, natural. Mas a gente nunca pensa que vai acontecer com a gente, muito menos quando se dirige numa estrada tão bonita. Eu não sou ingênua. Sei dos perigos das estradas, mesmo as mais tranquilas. Não sou ingênua.
Imaginei que pudessem haver buracos pela frente, mas no fundo, distraída com a beleza da paisagem, já nem me lembrava mais. A brisa era tão fresca e os frutos tão coloridos!

Eis que o buraco se aproxima. Ah! Come on, a pista é grande, dá pra desviar, não é preciso pensar nisso agora, vamos curtir mais um pouco...epa! O BURACO!! De repente, o sonho acaba. Não existem mais ruas limpas, a rádio já não toca mais músicas românticas, as árvores já não são tão verdes. Um acidente. O carro está quebrado. Não mexe, não anda, ponto morto...morto. Por muito tempo. Não se sabe quando voltará a engatar a primeira, a segunda, a quinta marcha novamente. Só consegue enxergar as memórias das borboletas, do céu azul, da brisa fresca. Tenta fazer o carro pegar, ele ensaia uma arrancada, mas logo o som dos motores diminui e ele volta à mesma posição. Nunca pensou que um buraco como aqueles, aparentemente tão fácil de ser contornado, pudesse deixar sequelas tão profundas.

A engrenagem já não é mais a mesma.

Thursday, July 03, 2008

Curto circuito

Dois meses e o circuito continua mal instalado. Como um carro, com os cabos da bateria meio-frouxos: às vezes pega no tranco, na maioria, nem liga. Só com a ajuda de um mecânico, que chega rápido, sem demora, sem pieguices. O carro pega, vai embora, e quando percebe, mal sente as mãos de graxa a tocar-lhe, a consertar-lhe.

Assim tem sido. Assim tem estado.

Ao menos aprendeu a sair, ficar e voltar cedo. Aprendeu a controlar as crises - ao menos em público. Ela que era de falar, falar, falar, agora, mal a reconhecem, senta-se e só faz ouvir. Era que ela de dançar, dançar, dançar, mal se mexe, agora só faz observar. Ela que era de viver, viver, viver, agora mal se anima, só faz assistir.

Ainda houve aquele feriado de licor, tempo frio e forró. Ah... cachoeiras, água gelada, fotos, comida natural. Achou que fosse a cura, mas voltou ainda mais envenenada. Um dia de pânico. Um filme de drama. Borboletas e choro.

Ela sabe o que quer, mas precisa ser forte para largar o vício. Isso, como um vício. Alivia a dor na hora do êxtase, mas dilacera ainda mais quando o efeito passa. Melhor largar de uma vez e sofrer com a abstinência: não mais emails, não mais telefonemas, não mais mensagens de texto.

E já sabe a solução. Naquele sábado de sono, a música, o cheiro e os pneus lhe mostraram o caminho. Um caminho. Seria uma boa saída, mas ela insiste em continuar dando voltas no estacionamento, sem sair do mesmo andar. Sabe que precisa determinação, e, algumas vezes um mapa, um guia. Escolhe seu guia e segue em frente. Tenta ser feliz de novo.

"Mas pode sim
Ser sim amado e tudo acontecer
Quero dançar com você
Dançar com você
Quero dançar com você
Dançar com você"

Saturday, April 26, 2008

Out of order

Chegou em casa desesperada. Na verdade, mal havia saído. Levou uma hora se arrumando: blusas, shorts, saias, cabelo, maquiagem, pulseira. Ah! perfume e celular.

Atravessou a porta da rua, chave do carro. Estaria pronta. Saída comum, vinha fazendo a mesma coisa nos últimos 8 anos pelo menos. Mesmas pessoas, mesmos lugares. Chegou. Gritos, discussões, palavrões.

Se retirou. Dormiu. Seria problema dela mesma ou das pessoas?
Com certeza era dramática, chata, arrogante, cheia de teorias. Queria provar ser diferente, simpatica, amigavel.

Sinceramente? Era pedir demais. Estariam ou problemas nela mesma ou nas pessoas?
Voltou. Choro preso, garganta dolorida, cabeca pesada. Trancou a porta, fechou-se em seu cantinho. Misturou-se a sua bagunca e ao seu computador. Sentiu-se um pouco melhor. Lembrou dos momentos bons e ruins que este a teria proporcionado. Rascunhou uma mensagem, nao, queria mesmo telefonar.

Estaria saudosa por estar doente ou estaria doente por estar saudosa?

Tentou chorar, ha tempos nao fazia isso, talvez fosse a solucao. Bateram na porta. Esta tudo bem? Estou um pouco doente, mas ja vou dormir. Se sentira um pouco melhor, alguem a havia notado. Mas nao era a mesma coisa. O coracao era maior, mas ja era de se esperar.

Queria o inesperado, fosse mais ousada quereria o impossivel.

Passeou em alguns textos. Leu mentes de algumas amigas escritoras. Ela sim, sabem escrever. Tivera achado seu remedio.
Elas tambem eram inseguras, elas tambem eram fracas, elas tambem eram confusas.

Nao estou sozinha.

Thursday, March 06, 2008

A Caçadora de Certezas

Olhando para o computador, tentou fazer uma previsão para o futuro. Não estava interessada num futuro próximo, sobre por exemplo qual seria a programação do fim de semana, ou qual deles a ligaria bêbado, às 3h da madrugada, naquele final de semana. Atormentada, ela havia passado o dia inteiro pensando em algo maior, mais distante, mais longínquo. Queria olhar para o futuro com a mesma determinação de quem olha para uma pipa voando no céu, na certeza de onde o vento a levará ao final do campeonato. Seria empurrada para cima das pedras e ensopada pelas ondas do mar ao quebrarem nos rochedos, ou alçaria voô alto, por cima das nuvens, até perder-se de vista? Decidiu, então, usar os últimos créditos do celular com uma ligação que a ajudaria a tomar os rumos da sua vida. Sempre fôra muito indecisa. Opções e variedades a faziam sofrer como a uma doença. Quando saía para comprar sapatos, ficaria horas rodando todas as lojas do shopping, analisaria as vitrines, experimentaria os modelos mais confortáveis (compatíveis com as longas caminhadas até o ponto de ônibus) e agonizaria de dúvidas. Assim acontecia para comprar aquela bolsa de ir pra faculdade, aquele vestidinho dos churrascos de sábado, aquele biquine da praia do fim de semana. Era indecisão da cabeça aos pés. Por fora, no entanto, transpirava determinação. Se fosse ela quem estivesse à venda, os olhadores de vitrines certamente leriam em sua testa: cuidado, cão bravo. E muitos a comprariam na intenção de amansá-la e desvendar seus muitos mistérios. Ao primeiro chamado do telefone, rezou para que fosse logo atendida, pois queria ver a sua dúvida sanada, palavras esclarecedoras do outro da linha, finalmente um caminho a seguir. Queria poder respirar fundo ao final daquela ligação, na certeza de que a pipa voaria bem alto, alcançando as camadas mais distantes da atmosfera, onde o ar, apesar de escasso e frio, traria o interesse de ser acessado por poucos. Queria poder plainar lá de cima, então olhar para baixo e ver que os rochedos continuavam sendo ensopados pelas ondas do mar, porém sem vestígios de cerol.