Bola de neve

Thursday, July 24, 2008

Acidente de trânsito

Imagine que você está dirigindo numa pista recém-asfaltada, lisinha, sem radares, você pode correr, dirigir bem rápido, sentido o ponteiro subir. Porém não há necessidade, você não está com pressa, você não está à trabalho. As ruas não são poluídas, os carros não são barulhentos, não há sinaleiras, nem mendingos. Você pode contemplar a paisagem enquanto dirige, um bosque lindo, àrvores enfeitam os canteiros das pistas limpas, nada fora do lugar. A estrada é longa, o céu é azul e você ouve música romântica. Ah! Como é lindo viver! É uma estrada nova, você se arriscou pensando que poderia ser sinuosa, arisca, mas se surpreendeu. Tudo é lindo, bucólico, romântico.

É claro que quem dirige sabe que está correndo o risco de acidentes, natural. Mas a gente nunca pensa que vai acontecer com a gente, muito menos quando se dirige numa estrada tão bonita. Eu não sou ingênua. Sei dos perigos das estradas, mesmo as mais tranquilas. Não sou ingênua.
Imaginei que pudessem haver buracos pela frente, mas no fundo, distraída com a beleza da paisagem, já nem me lembrava mais. A brisa era tão fresca e os frutos tão coloridos!

Eis que o buraco se aproxima. Ah! Come on, a pista é grande, dá pra desviar, não é preciso pensar nisso agora, vamos curtir mais um pouco...epa! O BURACO!! De repente, o sonho acaba. Não existem mais ruas limpas, a rádio já não toca mais músicas românticas, as árvores já não são tão verdes. Um acidente. O carro está quebrado. Não mexe, não anda, ponto morto...morto. Por muito tempo. Não se sabe quando voltará a engatar a primeira, a segunda, a quinta marcha novamente. Só consegue enxergar as memórias das borboletas, do céu azul, da brisa fresca. Tenta fazer o carro pegar, ele ensaia uma arrancada, mas logo o som dos motores diminui e ele volta à mesma posição. Nunca pensou que um buraco como aqueles, aparentemente tão fácil de ser contornado, pudesse deixar sequelas tão profundas.

A engrenagem já não é mais a mesma.

Thursday, July 03, 2008

Curto circuito

Dois meses e o circuito continua mal instalado. Como um carro, com os cabos da bateria meio-frouxos: às vezes pega no tranco, na maioria, nem liga. Só com a ajuda de um mecânico, que chega rápido, sem demora, sem pieguices. O carro pega, vai embora, e quando percebe, mal sente as mãos de graxa a tocar-lhe, a consertar-lhe.

Assim tem sido. Assim tem estado.

Ao menos aprendeu a sair, ficar e voltar cedo. Aprendeu a controlar as crises - ao menos em público. Ela que era de falar, falar, falar, agora, mal a reconhecem, senta-se e só faz ouvir. Era que ela de dançar, dançar, dançar, mal se mexe, agora só faz observar. Ela que era de viver, viver, viver, agora mal se anima, só faz assistir.

Ainda houve aquele feriado de licor, tempo frio e forró. Ah... cachoeiras, água gelada, fotos, comida natural. Achou que fosse a cura, mas voltou ainda mais envenenada. Um dia de pânico. Um filme de drama. Borboletas e choro.

Ela sabe o que quer, mas precisa ser forte para largar o vício. Isso, como um vício. Alivia a dor na hora do êxtase, mas dilacera ainda mais quando o efeito passa. Melhor largar de uma vez e sofrer com a abstinência: não mais emails, não mais telefonemas, não mais mensagens de texto.

E já sabe a solução. Naquele sábado de sono, a música, o cheiro e os pneus lhe mostraram o caminho. Um caminho. Seria uma boa saída, mas ela insiste em continuar dando voltas no estacionamento, sem sair do mesmo andar. Sabe que precisa determinação, e, algumas vezes um mapa, um guia. Escolhe seu guia e segue em frente. Tenta ser feliz de novo.

"Mas pode sim
Ser sim amado e tudo acontecer
Quero dançar com você
Dançar com você
Quero dançar com você
Dançar com você"