Bola de neve

Thursday, March 06, 2008

A Caçadora de Certezas

Olhando para o computador, tentou fazer uma previsão para o futuro. Não estava interessada num futuro próximo, sobre por exemplo qual seria a programação do fim de semana, ou qual deles a ligaria bêbado, às 3h da madrugada, naquele final de semana. Atormentada, ela havia passado o dia inteiro pensando em algo maior, mais distante, mais longínquo. Queria olhar para o futuro com a mesma determinação de quem olha para uma pipa voando no céu, na certeza de onde o vento a levará ao final do campeonato. Seria empurrada para cima das pedras e ensopada pelas ondas do mar ao quebrarem nos rochedos, ou alçaria voô alto, por cima das nuvens, até perder-se de vista? Decidiu, então, usar os últimos créditos do celular com uma ligação que a ajudaria a tomar os rumos da sua vida. Sempre fôra muito indecisa. Opções e variedades a faziam sofrer como a uma doença. Quando saía para comprar sapatos, ficaria horas rodando todas as lojas do shopping, analisaria as vitrines, experimentaria os modelos mais confortáveis (compatíveis com as longas caminhadas até o ponto de ônibus) e agonizaria de dúvidas. Assim acontecia para comprar aquela bolsa de ir pra faculdade, aquele vestidinho dos churrascos de sábado, aquele biquine da praia do fim de semana. Era indecisão da cabeça aos pés. Por fora, no entanto, transpirava determinação. Se fosse ela quem estivesse à venda, os olhadores de vitrines certamente leriam em sua testa: cuidado, cão bravo. E muitos a comprariam na intenção de amansá-la e desvendar seus muitos mistérios. Ao primeiro chamado do telefone, rezou para que fosse logo atendida, pois queria ver a sua dúvida sanada, palavras esclarecedoras do outro da linha, finalmente um caminho a seguir. Queria poder respirar fundo ao final daquela ligação, na certeza de que a pipa voaria bem alto, alcançando as camadas mais distantes da atmosfera, onde o ar, apesar de escasso e frio, traria o interesse de ser acessado por poucos. Queria poder plainar lá de cima, então olhar para baixo e ver que os rochedos continuavam sendo ensopados pelas ondas do mar, porém sem vestígios de cerol.

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