Releia quando chegar
Lençol de girassóis
Briza Mulatinho
Acordou de madrugada, com o barulho de chuva na janela. Uma chuva fininha e passageira. Ficou ali parada, olhando os carros que passavam apressados, mesmo já tão tarde. E percebeu que o mesmo pensamento que a acompanhava antes de deitar continuava lhe fazendo companhia. Só então se deu conta que não tinha nenhum controle sobre isso. Que não era ela quem estava no comando. Era o pensamento que a absorvia e lhe prendia como uma teia gigante. Talvez, se fizesse algum esforço, conseguisse escapar e sair dali correndo pra bem longe. Mas ela não queria. Ela se enrolava na teia e ria. Pensando num apartamento, que por algumas horas foi o centro do Universo. Um Universo paralelo. Onde havia música e o olhar dele que falava mais alto que qualquer palavra. Onde o frio na barriga era o contraponto do calor na pele. E o medo, o contraponto do desejo. Medo de estragar tudo. Medo de ir além. Medo de acabar com o encanto. Um passo em falso e a queda livre... E era difícil caminhar assim de olhos fechados. Sem respostas, sem certezas, só seguindo a intuição. Ela continuou andando no escuro. Até ficar frente a frente com aquele olhar. Que incendiava. Achou graça por pensar que poderia ser diferente. Por acreditar que, de alguma forma, o destino pudesse lhe pregar uma peça e levá-la a outro canto. E foi assim que, em meio à confusão e à surpresa, tudo desapareceu. O tempo, o espaço, o mundo lá fora. Sumiram. Como num passe de mágica. Só havia aquele lugar e aquele momento. Mais nada. A vida derretia, se desfazia. Se transformava em luz e cor. Quando deitou no lençol de girassóis, a razão despertou. Numa fração de segundos, o pensamento se encheu de nãos. Levantou, pegou a bolsa e fez a última coisa que queria fazer: foi embora, sem saber que já não tinha pra onde ir.

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